Sintomas Contemporâneos e Clínica Psicanalítica:
- Alcides Dutra
- 3 de jun.
- 3 min de leitura
Atualizado: 10 de jun.
Quando o Sofrimento Ganha Novas Formas

O que mudou no sofrimento psíquico? A clínica contemporânea apresenta novos desafios para a escuta psicanalítica. Se na época de Freud predominavam sintomas como a histeria de conversão e as neuroses clássicas, hoje nos deparamos com outras formas de sofrimento: bloqueios afetivos, vazio existencial, compulsões, depressões resistentes, crises de identidade e questões de gênero, por exemplo.
Mas será que os sintomas mudaram ou apenas ganharam novas roupagens? A psicanálise, mais do que encaixar diagnósticos, escuta o que cada sintoma revela sobre o sujeito e sua relação com o desejo, o corpo e o Outro.
No cenário atual, marcado pela aceleração do tempo, pela valorização da performance e pela hiperexposição nas redes sociais, observa-se o predomínio de um novo ideal normativo que se impõe como uma versão atualizada do supereu: imperativos como “produza mais”, “esteja feliz” e “viva intensamente” funcionam como comandos psíquicos internalizados. Diante da impossibilidade de responder plenamente a essas exigências, o sujeito contemporâneo é confrontado com o retorno do recalcado sob a forma de sintomas que escapam a uma significação clara e se apresentam como expressões difusas do mal-estar.
Manifestações clínicas recorrentes:
Sentimento persistente de inadequação e insuficiência
Estados de ansiedade generalizada e flutuante
Episódios de pânico descontextualizados
Redução da capacidade de concentração e de experimentar prazer
Queixas relativas à superficialidade e esvaziamento dos vínculos amorosos
Esses sintomas não seguem um padrão clássico. São, muitas vezes, sem forma definida, mas com grande impacto na vida do sujeito.
Segundo Lacan, há, assim, na atualidade, uma mudança na hegemonia discursiva com o surgimento do capitalismo. O excesso da produção de objetos leva a um imperativo superegóico de consumo para os sujeitos: “Goze!”. O discurso do capitalista substitui o discurso do mestre, que era marcado pela primazia do inconsciente, do sentido, do simbólico e dos ideais. Há, portanto, um processo de dessimbolização, desbussolamento que afeta nossa sociedade, afirmação que vai ao encontro de Zygmunt Bauman, que também já apontara uma “liquidez” nas relações, evidenciando a dificuldade na construção dos laços sociais no contemporâneo.
O corpo como palco do sofrimento, hoje, o corpo aparece na clínica como um campo de batalha: compulsões alimentares, vícios, automutilações, transtornos de imagem e sexualidades fragmentadas. O corpo grita onde a palavra falha, a clínica nos mostra que, muitas vezes, não se trata apenas de transtornos psiquiátricos. O corpo carrega a marca de um gozo que não se simboliza - um excesso que escapa ao discurso.
O que a psicanálise oferece?

A escuta psicanalítica não busca silenciar o sintoma com respostas rápidas. Ela escuta o enigma do sujeito, aquilo que insiste, que se repete, que não se adapta. Ela aposta na singularidade de cada história, permitindo que o sujeito encontre um lugar possível para seu desejo - mesmo em meio ao mal-estar da cultura. "O sintoma é uma solução do inconsciente para o impasse do desejo." - Jacques Lacan
É ao tomar cada caso em sua singularidade que a análise pode acompanhar cada sujeito em sua invenção particular e construir um saber-fazer com seu sintoma. A clínica como espaço de criação na contemporaneidade, o consultório é o lugar da elaboração, do questionamento, da escuta sem juízo, da livre associação. A direção do tratamento passa por reduzir a repetição sintomática e permitir a emergência do sujeito dividido.
Nomear o sofrimento e transformá-lo em linguagem. Acolher sem normatizar, uma clínica em movimento. A clínica psicanalítica é viva, aberta e em constante transformação. Ela escuta o que escapa ao manual, o que não se adapta à norma. Escuta o silêncio, o riso nervoso, o corpo que treme, a fala que vacila. Mais do que tratar "doenças mentais", trata-se de escutar sujeitos - em sua singularidade, em sua dor, e também em sua potência.
Referências :
Sigmund Freud – O Mal-Estar na Civilização (1930)
Jacques Lacan – O Seminário, Livro 7: A Ética da Psicanálise (1959-60); Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais
Zygmunt Bauman – Amor Líquido (2003); Modernidade Líquida (2000)



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