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Como a Neurociência Afetiva Explica as Emoções Humanas

  • Foto do escritor: Alcides Dutra
    Alcides Dutra
  • 10 de mar.
  • 3 min de leitura

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A Neurociência Afetiva, desenvolvida por Jaak Panksepp e posteriormente expandida por Mark Solms, propõe que as emoções humanas são organizadas em sistemas básicos, presentes tanto em humanos quanto em outros mamíferos. Esses sistemas emocionais primários são estruturas profundas do cérebro, responsáveis por moldar nossos comportamentos e interações com o mundo.



Panksepp identificou sete afetos básicos, que servem como a base para todas as experiências emocionais humanas. Esses sistemas não são apenas respostas subjetivas, mas redes cerebrais concretas que operam de forma instintiva e automática. O estudo desses afetos tem impacto direto na psicologia, psiquiatria e psicanálise, pois explica desde transtornos emocionais até padrões de desenvolvimento infantil e tomada de decisão.



Os Sete Afetos Básicos


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1.    SEEKING (Busca/Exploração)


  • Definição: Sistema responsável pela motivação e curiosidade. Está associado à dopamina e impulsiona a busca por novidades, recompensas e aprendizado.

  • Exemplo Clínico: Em quadros depressivos, o sistema SEEKING pode estar hipoativo, resultando em apatia e falta de interesse pelo mundo.

  • Neurociência: Localizado no hipotálamo e no mesencéfalo, ativa circuitos de recompensa.





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2.    RAGE (Raiva/Indignação)


  • Definição: Sistema que gera reações de defesa e frustração quando um objetivo é bloqueado.

  • Exemplo Clínico: Indivíduos com transtorno de personalidade borderline costumam ter hipersensibilidade no sistema RAGE, reagindo intensamente a frustrações.

  • Neurociência: Ligado à amígdala, hipotálamo e córtex pré-frontal ventromedial.





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3.    FEAR (Medo/Ansiedade)

  • Definição: Responde a ameaças, preparando o organismo para lutar, fugir ou congelar. Essencial para a sobrevivência.

  • Exemplo Clínico: Em casos de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), há uma hiperatividade nesse sistema, levando a preocupações excessivas e sensação constante de perigo.

  • Neurociência: Baseado na amígdala e no hipotálamo.






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4.    LUST (Desejo Sexual)


  • Definição: Sistema relacionado à atração, reprodução e prazer sexual, regulado por hormônios como testosterona e estrogênio.

  • Exemplo Clínico: Desequilíbrios nesse sistema podem estar ligados a transtornos sexuais, como hipersexualidade ou aversão sexual.

  • Neurociência: Envolve o hipotálamo, o sistema límbico e o córtex orbitofrontal.






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5.    CARE (Cuidado/Apego)


  • Definição: Responsável por sentimentos de amor, empatia e proteção. Associado à ocitocina e vasopressina.

  • Exemplo Clínico: Em indivíduos com transtorno do espectro autista, pode haver déficits nesse sistema, dificultando a empatia e conexões emocionais.

  • Neurociência: Relacionado ao hipotálamo, núcleo accumbens e córtex pré-frontal.





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6.    PANIC/GRIEF (Pânico/Luto/Solidão)


  • Definição: Sistema ativado pela separação ou perda, gerando angústia e saudade.

  • Exemplo Clínico: Quadros de depressão profunda podem estar ligados à hiperatividade nesse sistema, causando desmotivação e sensação de vazio.

  • Neurociência: Envolve a amígdala, a ínsula e o sistema opioide endógeno.





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7.    PLAY (Brincadeira/Exploração Social)


  • Definição: Essencial para a aprendizagem social e desenvolvimento emocional. O jogo físico e simbólico fortalece vínculos e regula emoções.

  • Exemplo Clínico: Crianças com déficit no sistema PLAY, como em casos de Transtorno do Espectro Autista, podem apresentar dificuldades na interação social e no desenvolvimento da imaginação.

  • Neurociência: Atua no córtex pré-frontal, no sistema límbico e na substância cinzenta periaquedutal.



Importância Clínica e Aplicação


A categorização dos afetos básicos proposta por Panksepp e Solms revoluciona o entendimento sobre transtornos emocionais e comportamentais. Ao invés de tratar apenas os sintomas, compreender qual sistema emocional está alterado permite abordagens mais eficazes na psicoterapia, na psicanálise e no uso de intervenções farmacológicas.


Por exemplo:


  • Em quadros de depressão, observa-se hipoatividade do sistema SEEKING e hiperatividade do PANIC/GRIEF. Tratamentos eficazes devem considerar a estimulação da motivação e o manejo da dor emocional.

  • No transtorno de ansiedade, há uma hiperatividade do sistema FEAR, o que justifica o uso de técnicas de regulação emocional e terapias de dessensibilização.

  • No TDAH, pode haver um SEEKING hiperativo, resultando em busca constante por estímulos e impulsividade.


A teoria dos sete afetos básicos, desenvolvida por Jaak Panksepp e expandida por Mark Solms, fornece uma base neurocientífica robusta para compreender as emoções humanas. Seu impacto vai além da pesquisa acadêmica, influenciando diretamente a prática clínica, a psicoterapia e até mesmo a psicanálise contemporânea.


Compreender como cada um desses sistemas opera não apenas enriquece a visão sobre a natureza humana, mas também abre portas para intervenções mais precisas e humanizadas no tratamento de transtornos emocionais.







Fonte: CORRÊA, M. F.; PESSOA JUNIOR, O. F. Os afetos emocionais segundo Panksepp, comparados com Damásio e com o materialismo observacional. In: ALVES, M. A. (org.). Cognição, emoções e ação. Marília: Oficina Universitária; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2019. p. 279-310. DOI: https://doi.org/10.36311/2019.978-85-7249-019-1.p279-310










 
 
 

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